segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Presente num domingo de manhã


Recebi aquele presente em 21 de setembro de 2014. Era manhã de domingo. Uma daquelas manhãs de vento fresco e sol brilhante. Para recebê-lo teria que comparecer em certo local. Na chegada, o porteiro avisou:
--Dona Antônia está no velório três.

Subimos a alameda cercada de árvores e placas com partes de poemas de Carlos Drumond de Andrade.

Chegamos ao velório três. Um grupo de pessoas, não mais de vinte, reunidas em torno do esquife, ouvia atentamente, alguém que com uma bíblia aberta nas mãos, falava. O ambiente era simplesmente leve, intimista. Aquele que falava, entre muitas outras coisas, disse que D. Antônia já não sabia quem eram os filhos, os netos, ou qualquer outra pessoa. Não sabia sequer quem ela era. Mas que, o mais importante, era que, quem com ela convivia, sabia bem o seu valor. Falou do carinho com que foi cuidada pela filha Jane.

Uma emoção ainda desconhecida, ou talvez reprimida, começou a se apoderar do meu coração.
A palavra foi dada a outro, cujas primeiras frases foram de confissão. Disse que enquanto ouvia seu antecedente fazia uma reflexão sobre a própria história. Contou um pouco dela. Mais especificamente seu ponto de virada... Era sábado, 02 de novembro de 1974, dia dos mortos. Ele estava morrendo de overdose, aos 19 anos, em uma das praças da cidade de Belo Horizonte. Deitado na sarjeta, no auge de sua crise, lembrou-se dos muitos folhetos com mensagens bíblicas que havia recebido de algumas pessoas, acompanhados de palavras como: “Jesus te ama e pode transformar sua vida pra melhor”. Naqueles momentos de angústia diante da morte, no dia dos mortos, fez uma  oração:

-- “Deus, por favor, não me deixe morrer, pois se eu morrer agora irei pro inferno”.

Recuperado da crise foi para casa e do fundo da gaveta recuperou os folhetos ali guardados. Leu tudo. No dia seguinte, manhã de domingo, aprontou-se e saiu rumo a uma igreja. Ao entrar, o Coro da mesma estava à frente cantando. Extasiado com a beleza o jovem só pôde exclamar:

-- “Deus, por que o Senhor não me salvou há mais tempo”?

O filho José, usando de empréstimo a Bengala de Jane, foi à frente e falou palavras bonitas sobre a mãe, incluindo a primeira e a última frase do poema que lhe fizera no último aniversário. Pena que pela falta de memória não posso compartilhá-las.

Uma jovem bonita iniciou uma música, com a introdução de que D. Antônia dela muita gostava. Cantou suave a primeira estrofe, mas na segunda a emoção tomou conta do lugar e a jovem, sem voz, somente chorava seu choro silencioso. Nesse momento os funcionários do cemitério chegaram para levar o corpo. Eliseu um dos netos sugeriu:

-- Vamos fazer a última oração e encerrar.

Com voz recuperada, a jovem recomeçou o canto . No fim dele, Eliseu, convidou aos presentes que dessem as mãos uns aos outros e orou, As lágrimas rolaram pelas faces, inclusive pelas minhas.


É difícil acreditar, mas participar do velório de D. Antônia foi um dos melhores presentes que já ganhei na vida. 

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