quarta-feira, 28 de julho de 2010

Consagração feminina: Por que pensamos como pensamos?



JOSUÉ MELLO SALGADO

Pastor, presidente da CBB
O JORNAL BATISTA - 27JUN10
 http://pastorazenilda.blogspot.com/

No epicentro da eterna controvérsia em torno da consagração de mulheres ao ministério pastoral está a Bíblia. Na verdade uma forma de entender a Bíblia e aplicar o “Princípio Bíblico” da aceitação das Escrituras Sagradas (ou do Novo Testamento) como única regra de fé e conduta, tão caro aos batistas. É possível observar na fundamentação bíblica das posições controversas duas “escolas”, ou tipologias de argumentação: Taborismo e utraquismo.

Israel Belo, no seu “Celebração do Indivíduo”, traz-nos uma excelente compreensão dessas tipologias aplicadas à Teologia moral protestante, evangélica ou batista: “Para entender a Teologia moral, é útil empregar uma tipologia desenvolvida pelos teólogos hussitas do século 15. Os utraquistas entendiam que somente aquilo que a Bíblia proibia expressamente devia ser proibido na vida da comunidade cristã. Mais radicais, os taboritas ensinavam que tudo aquilo que não estava expressamente autorizado pela Bíblia devia ser rejeitado. Lutero era utraquista e só rejeitava o que a Bíblia não aprovava. Zwinglio e os anabatistas em geral esposavam a mesma ideia, apesar de seus conceitos diferentes do que era a comunidade cristã. Calvino era taborita e rejeitava tudo o que não podia ser provado pela Bíblia. Por isto, era rígido na doutrina e na prática. Os anabatistas, embora utraquistas, não eram menos rígidos” (Israel Belo em “A Celebração do Indivíduo: A Formação do Pensamento Batista Brasileiro”).

Taboritas (da cidade de Tabor, na histórica região central da Europa, Boêmia, na República Tcheca) era a facção mais radical dentre os Hussitas, ou seguidores do teólogo pré-reformador rebelde Jan Hus (1372-1415) do século XV, seguidor de John Wycliffe (1320-1384). Utraquistas (do latim sub utraque specie, ou “em ambas espécies”) foi a denominação dada à facção moderada dentre os hussitas, hoje nos Estados Unidos a Igreja dos Morávios. Os utraquistas defendiam que o pão e o vinho deviam ambos ser servidos aos fiéis (daí “em ambas espécies”) e não apenas o pão, deixando o cálice para o clero. Embora taboritas e utraquistas fossem colocados debaixo do “guarda-chuva” hussita defendiam algumas posições teológicas diferentes. É sobretudo na sua teologia moral, no que diz respeito à fundamentação bíblica, que ambos representavam posições opostas que aqui nos interessam como tipologia.

Embora aplicado à teologia moral ou à moralidade, a tipologia hussita dos taboritas versus utraquistas nos ajuda a entender a categoria mental que está por trás da concordância e da discordância quanto à consagração de mulheres para o ministério pastoral e sua tentativa de fundamentação bíblica. Aliás, ajuda-nos a entender o porquê de não conseguimos chegar a um denominador comum sobre essa questão embora ambos os lados afirmem base escriturística.



De tendência taborita, alguns creem que a Bíblia não autoriza de forma expressa, isto é ipsis litteris, a consagração de mulheres ao ministério pastoral. Portanto, a consagração deve ser rejeitada.

A tentativa de encontrar sanção bíblica expressa para a rejeição esbarra na ausência de textos explícitos, sim de aprovação, mas também de recusa. Passa-se então a adotar uma interpretação literalista fundamentada no uso dos artigos definidos masculinos e na ausência de artigos definidos femininos.

O problema é que a expressão “pastor” só aparece uma vez em todo o Novo Testamento (no plural) se referindo aos líderes de igreja, em Efésios 4.11 com poiménas (substantivo acusativo masculino plural de poimen): “E Ele mesmo deu (...) outros para pastores” (conforme o verbete poimen - pastor - no artigo de Joachim Jeremias “a designação dos dirigentes das igrejas locais como pastores” em “Theologisches Wörterbuch Zum Neuen Testament, Band VI”).

A obsessão por uma análise morfológica dos textos bíblicos que identifique o gênero das palavras para assim determinar uma interpretação distinta e exclusivista, masculina ou feminina, para este ou aquele texto, é temerária e ao meu ver insustentável. Na abertura do sermão do monte lemos: “Jesus, pois, vendo as multidões, subiu ao monte; e, tendo ele se assentado, aproximaram-se os seus discípulos, e ele se pôs a ensiná-los” (Mateus 5.1-2). A palavra grega mathetai (discípulos) é um substantivo nominativo masculino plural. Se vamos seguir a lógica da hermenêutica do gênero significa que todo o sermão do monte foi direcionado aos 12 discípulos homens. Assim, nada do que está aí escrito é para mulheres, que aliás por aí não podem também ser discípulas! Para obedecer o ide de Jesus, teríamos então que fazer discípulos de todas as nações, mas não de todos os dois gêneros. Outro exemplo está em Mateus 4.19: “Disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens”. A quem Jesus dirigiu esse convite/ordem? Pelo texto bíblico: A Simão e André. Dois homens a quem Jesus comissionou para fazer “pescadores de homens”. Quer dizer que se eu aplico esse texto à toda a igreja, homens e mulheres, estaria, na linha de raciocínio literalista, errando duas vezes, pois estaria atribuindo uma chamada divina feita a homens à mulheres e o que é pior, dizendo a elas para “pescarem” também mulheres quando Jesus estaria dizendo originalmente à homens para pescarem só homens! É óbvio o absurdo do argumento contra a ordenação feminina baseado em artigos definidos nos textos bíblicos, e em interpretação literalista da Bíblia. Bem disse Paulo que a letra mata!


Por outro lado, uma hermenêutica bíblica utraquista parte do pressuposto e da chave interpretativa de que a Bíblia não proíbe expressamente a consagração de mulheres para o exercício do ministério pastoral, sendo portanto autorizado.



Como a categoria mental utraquista não busca encontrar autorização expressa, mas proibição expressa, sua fundamentação está mais nos princípios que em normas, mais no espírito e menos na letra. A posição utraquista buscará fundamentação no princípio da igualdade de dignidade entre homem e mulher. Parte do princípio da igualdade de gênero que obviamente não deve ser entendida como igualdade absoluta física ou mesmo psicológica. Afinal não há um ser humano idêntico ao outro, nem mesmo pessoas do mesmo gênero! A questão envolvida é da igualdade de dignidade diante de Deus e a superação de qualquer inferioridade, incapacidade ou desqualificação para, neste caso, a liderança eclesiástica.

Nós, batistas, concordamos de forma absoluta com o princípio reformador do Sola Scriptura em geral e em particular com o princípio bíblico da autoridade do Novo Testamento em questão de fé e prática. Contudo, à partir da chave hermenêutica taborista ou utraquista, buscaremos autorização ou proibição expressa para convicções e práticas não explicitadas nas Escrituras. Para a satisfação de tal busca temos a presença do Espírito Santo em nós, como se expressou o apóstolo Paulo para fundamentar suas “opiniões” que não encontravam mandamento explícito do Senhor: “E eu penso que também tenho o Espírito de Deus” (1 Coríntios 7.40b). Temos o Espírito Santo de Deus. Temos condições de discernir bem o melhor caminho a tomar.



Não vislumbro possibilidade de consenso entre essas duas categorias mentais interpretativas. Os utraquistas continuarão buscando encontrar proibição expressa, os taboritas continuarão buscando encontrar autorização expressa. Estou convencido de que a Bíblia não tem nem uma nem outra. Como encontrar uma solução?



Os grandes profetas clássicos do século VIII a.C. utilizaram uma fórmula comum para sua pregação: “Assim diz o Senhor”. O judaísmo, entretanto, parece ter subjugado a fórmula profética à uma outra: “Assim diz a Escritura”. Quando, por exemplo, os principais dos sacerdotes e fariseus mandaram os seus guardas prenderem Jesus por causa da pergunta “Vem, pois, o Cristo da Galiléia?” (João 7.41) os guardas não o puderam prender porque “nunca homem algum falou assim como este homem”. Esses líderes tentavam circunscrever a liberdade divina à partir de uma interpretação particular da Bíblia dizendo: “Examina e vê que da Galiléia não surge profeta (João 7.52). Assim subjugaram o “assim diz o Senhor” ao “assim diz a Escritura”. Obviamente essa inversão de primados acaba por lançar em rosto divino a Escritura a partir do método taborita, insinuando que Deus “não pode” o que não esteja expressamente autorizado na Bíblia. Obviamente uma blasfêmia contra os céus!


Tal hermenêutica me lembra também os métodos da Ku Klux Klan (também conhecida como KKK, nome de várias organizações racistas dos Estados Unidos que apóiam a supremacia branca e o protestantismo). Em meus estudos de doutorado na Alemanha sobre o tema do racismo registrei diversas tentativas da KKK de fundamentar biblicamente a sua posição pessoal preconceituosa de serem os negros “biblicamente” menos que humanos e predestinados por Deus para a escravidão e para servirem aos brancos (conforme diz Israel Belo em “A Celebração do Indivíduo: A Formação do Pensamento Batista Brasileiro”). Não creio que a prática hermenêutica dos principais dos sacerdotes e fariseus e da KKK sejam as mais recomendadas para nós batistas brasileiros!


Estou convencido de que o caminho, não do consenso ou da uniformidade, mas da unidade na diversidade, está na volta do primado divino, na pronúncia do “assim diz o Senhor” antes da pronúncia do “assim diz a Bíblia”. Penso que para isso precisamos responder com sinceridade a duas perguntas: Deus é livre para chamar e usar no pastoreio prático do seu povo quem Ele queira e determinou em sua soberania e Graça? Deus tem chamado e usado mulheres para o pastoreio prático do seu povo?

Devemos ou não aceitar mulheres no ministério pastoral batista? Sugiro que perguntemos em humildade a Deus ao invés de continuar buscando fundamentação bíblica para nossas posições já assumidas.

Leia também:
AS PASTORAS E A JUSTIÇA NA OPBB - http://pastorazenilda.blogspot.com/


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