quinta-feira, 25 de março de 2010

A BÍBLIA ESCONDIDA (Baseada na vida de Otávio da Silveira Gervásio)












Há muitos anos, na verdade há 88 anos, uma numerosa família constituída do pai Diógenes da Silveira Gervásio, da mãe Rita Maria da Conceição e nove filhos, saiu de Laranjal município de Cataguases - MG, fixando residência em Humaitá, município de Mutum – MG. Por ocasião da mudança o filho mais velho, Otávio da Silveira Gervásio tinha 15 anos e era o ano de 1924. Muito trabalho esperava a nova família, principalmente um, que deve ser evitado hoje: o desmatamento. Foi necessário o corte de muitas árvores gigantescas para a construção de casas e formação de lavouras e pastos.


O pai Diógenes era um português bravo e rígido com os filhos, exigindo obediência absoluta. Os filhos por sua vez, obedeciam-no em tudo com o maior respeito. Mas em dado momento de sua vida Otávio, teve de desobedecê-lo. E foi assim: Aos dezessete anos Otávio foi dar um passeio, em um domingo. Depois de andar uns dezoito Quilômetros, algo lhe chamou a atenção ao passar perto de uma casa. Ele ouviu uma linda música cantada por um grupo de pessoas. O jovem então apeou de seu cavalo e ficou ali embevecido, ouvindo pela primeira vez algo tão belo jamais presenciado em toda sua vida! Aquela música foi usada pelo Espírito Santo para sensibilizar seu coração. E dela ele se lembraria por toda a vida. Ele não se cansava de cantar:

Ao findar o labor desta vida,Quando a morte ao teu lado chegar,
Que destino há de ter a tua alma?Qual será no futuro o teu lar.
Meu amigo, hoje tu tens a escolha: Vida ou morte, qual vais aceitar?
Amanhã pode ser muito tarde, Hoje Cristo te quer libertar.

Tratava-se de um grupo de crentes batistas que se reunia todos os domingos para louvor e adoração a Deus e estudo Bíblico. Na ocasião, eles cantavam o hino 407 CC. Depois de ouvir a pregação, Otávio, compreendendo a mensagem, aceitou a Jesus como salvador, fazendo com Deus o compromisso de ser também um crente. Escolheu a vida, como dizia o hino cantado. Essa escolha, porém, lhe colocou diante de uma situação delicada: Se por um lado obedecia a Deus, por outro, desobedecia a seu pai que era ferrenhamente contra a crença dos chamados “protestantes” e seu “livro de capa preta”, nome pejorativo dado à Bíblia.

Sabedor de que no aspecto espiritual, seu pai estava enganado, Otavio preferiu obedecer a Deus e continuou, de forma secreta, a participar dominicalmente do culto e Escola Bíblica. Porém o jovem sabia que não estava livre do castigo do pai. Era só uma questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde ele descobriria seu segredo. Não demorou muito para que isso acontecesse. Um dia ele ganhou uma Bíblia. Sua curiosidade em descobrir a vontade de Deus para sua vida, foi tal que ele começou a lê-la durante as madrugadas à luz da lamparina, aproveitando o sono dos demais. Acontece que as casas naquela época não possuíam Lages. Eram de telhados e a luz em um cômodo podia ser vista por quem estivesse em outros. Otávio foi pego em flagrante:
__O que esse menino está fazendo com lamparina acesa até essa hora, gastando querosene?! Foi a pergunta do pai ao acordar certa madrugada. E lá foi ele olhar pela fresta da porta. Otávio estava sentado na cama lendo. Que livro poderia ser aquele? Olhando um pouco mais firme, a confirmação lhe veio como uma facada no peito:
__ “O livro da capa preta”! Não pode ser! Tudo, menos isso.
Diante da fúria do pai, Otávio teve que fazer nova escolha: consumir com a Bíblia e continuar em casa ou, ir embora com ela. O convívio com seus familiares era para o jovem um tesouro. Mas o que estava descobrindo com a leitura da Bíblia se constituía em um tesouro incomparavelmente maior. Diante do veredicto do pai, o rapaz mudou-se para uma casinha velha sob a ameaça de que um dia seu “livro” seria queimado. Esse dia chegou! Cumprindo sua promessa o pai foi até à casa do filho em busca do “livro da capa preta”. Nada encontrou. O rapaz era esperto! Ao sair de manhã para o trabalho levava consigo a Bíblia que era cuidadosamente escondida no mato. Ao saber desse fato Sr. Diógenes arquitetou novo plano para o sumiço do “livro”. Era só esperar o momento certo. Em um belo dia Otávio fez uma pequena viagem. Sr. Diógenes partiu em busca de sua vingança. Procurou em todas as moitas, em volta da casa. Não conseguindo encontrar a Bíblia, o velho português, cumpriu seu intento: tocou fogo no mato queimando todo o pasto. Era o fim do “livro”. Pelo menos em sua concepção.


O que ele não sabia era que o esconderijo era bem mais seguro: era uma cova funda no chão, bem protegida, onde a Bíblia, embrulhada, era cuidadosamente escondida e coberta com terra. O fogo passou por cima e queimou todo o pasto. A Bíblia ficou intacta.


Sob a perseguição do pai, Otávio viveu até os vinte e dois anos, em constante intercessão pela conversão de seus familiares. O primeiro a ser alcançado pela misericórdia de Deus foi seu irmão Filinho. Ele passou a dormir na casa de Otávio e juntos liam a Bíblia até altas horas da noite. O tempo passou. Aos vinte seis anos Otávio se casou com a jovem Ermita Maria da Silva. Ambos sentiram o desejo de abrir um ponto de pregação em sua residência. Mas a casa era muito pequena e Sr. Diógenes jamais permitiria a construção de um salão de cultos em sua propriedade. Foi então que tiveram uma idéia muito criativa: Na porta da sala de casa existia uma enorme figueira que produzia sombra suficientemente grande, capaz de proteger do sol muitas pessoas. Otávio e Filinho fincaram paus no chão, colocaram tábuas e fizeram vários bancos e uma mesa. E ali muitos convidados, ouviam a Palavra de Deus e alguns compreenderam o seu amor. Mais tarde Otávio construiu uma casa maior com quarto, cozinha e uma sala grande, local que funcionou como salão de cultos durante um bom tempo. Foi nesse período que um pastor foi chamado para a realização dos batismos dos convertidos: Otávio e sua esposa Ermita, Filinho e mais dezesseis irmãos. Assim foi organizada a congregação Batista de Humaitá, pela Igreja Batista de Ocidente.


Suas orações aos poucos eram atendidas por Deus. Suas sete irmãs se converteram. Faltavam somente seus pais. E um dia eles compreenderam o amor de Deus. Otávio foi chamado para receber a notícia e incumbido de convidar o pastor para realizar os batismos. Na data marcada ele buscou seus velhos pais num carro de boi, pois Sr.Diógenes pesava mais de cem quilos e não agüentava andar à cavalo nem à pé. A cerimônia foi realizada pelo pastor Benjamim Cândido do Bem. Não podendo conter a emoção Otávio chorou durante a cerimônia.


O, agora, “irmão Diógenes”, separou uma parte do terreno para a construção da “casa de oração”. O templo foi construído e durante décadas serviu de abrigo para aqueles que cultuavam a Deus naquele local. Hoje um novo templo substitui o antigo e a nova geração substitui a anterior. São os descendentes do irmão Otávio e do irmão Filinho, os dirigentes, os pregadores, os instrumentistas, os vocalistas. A gratidão a Deus pelo trabalho missionário de Otávio continua nas suas lembranças, pois ele hoje se encontra na glória, desfrutando plenamente do amor de Deus e recebendo Dele o galardão pelo seu trabalho.
Por Senhorinha Gervásio

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