segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

PEDIMOS PERDÃO POR NASCER HOMENS














(Para ver o efeito gif dê clique duplo sobre a imagem da garota e veja o que a mulher tem feito ao longo da história para provar que é capaz...)


Pr. Marcos Monteiro
Pastor da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA, e integrante do colégio pastoral da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, PE, Marcos manifesta-se a respeito da decisão da Ordem de Pastores Batistas (OPBB - Seccional Alagoas), de não realizar o concílio de ordenação ao ministério pastoral da missionária Cleide Galvão. Ele se refere a outro artigo sobre o mesmo fato, de Odja Barros Santos, pastora da Igreja Batista do Pinheiro.

“Entendo, Odja, que é muito pouco o que queremos fazer: pedir perdão. Lamentavelmente, isso será o máximo que faremos, porque não iremos nos converter e não aprendemos a nos arrepender e nem queremos realmente. Não escolhemos nascer homens, mas temos tirado todo o proveito possível dessa desigualdade acidental. A sociedade nos destinou o melhor pedaço, as melhores oportunidades e os maiores privilégios e nos apossamos disso com certo prazer malévolo.
“A maioria de nós nem percebe a injustiça dessa sociedade androcêntrica; a parte que percebe faz muito pouco. Acompanhar as dores específicas dessas mulheres especiais que são vocês duas, Pastora Odja (com concílio) e Pastora Cleide (apesar do concílio), é somente reconhecer as dores generalizadas de todas as mulheres, incluindo as outras pastoras, nesse absurdo mal de ser, como denuncia Gebara e como lembra você.

“O esforço de vocês é desumano. Precisam se esforçar dez vezes mais e trabalhar dez vezes mais somente para provar que são iguais a nós, homens. No discipulado de iguais de Jesus Cristo, certamente vocês seriam reconhecidas mais justamente. Aliás, esse título de “pastor” e essas cerimônias conciliares e sacerdotais são típicas do mundo masculino. Em uma sociedade de iguais, talvez prevalecesse aquilo que uma de suas teólogas colocou magistralmente: “A questão talvez não seja ordenar a mulher, mas desordenar o homem”. Essa perspicácia feminina nos incomoda bastante. O amor ao poder parece ter sido nossa principal bandeira, enquanto o poder do amor tem sido a constante demonstração de vocês. Obviamente, muito mais evangélica.

“Não iremos lutar contra estruturas, nós homens somos as estruturas. Nós nos apoderamos delas e não abriremos mão facilmente dos nossos privilégios. Nós nos apossamos do movimento de Jesus, da seleção de textos sagrados, da interpretação dos mesmos e faremos o possível para construir um discurso teológico que nos mantenha no poder, mesmo reconhecendo que as nossas estruturas estão falidas (incrível, como repetimos isso inutilmente). Continuaremos repetindo discursos imbecis e piadinhas idiotas, exatamente para mascarar o nosso fracasso e continuaremos, enquanto possível, nos desviando das questões teológicas mais sérias do nosso tempo.
“Não iremos nos arrepender. Em vez de mudar de mentalidade e de atitude prática contra o machismo estrutural que somos nós, estabeleceremos uma série de metas menores e insignificantes para fingir que somos cristãos. As lutas contra o mal nas bases das nossas sociedades evitaremos sempre: não podemos arriscar nossos privilégios seculares.

“Por tudo isso, Odja e Cleide, pessoas humanas que nem precisam de títulos como precisamos, o máximo que podemos fazer é pedir perdão e não mais do que isto. Lamentavelmente, a esperança por um mundo de iguais, passa pela luta solitária de vocês, onde não nos terão como parceiros. Continuem a luta. Por incrível que pareça, precisamos de vocês. A libertação das mulheres também significa inevitavelmente a libertação dos homens. Conseguindo se libertar, vocês mulheres, do mal ontológico de ser, seremos automaticamente libertados, nós homens, do mal quase ontológico de oprimir.”



Feira de Santana, 9 de setembro de 2008.

* Marcos Monteiro é Mestre em Filosofia, é assessor de pesquisa do CEPESC, vice-presidente do Centro de Ética Social Martin Luther King e coordenador do Portal da Vida

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