domingo, 4 de outubro de 2009

O ESPÍRITO DO LIDER CRIATIVO



Walmir Vieira
Diretor Executivo da ANEB
Associação Nacional de Escolas Batistas



Este texto pretende destacar as características que marcam um líder do tipo que podemos chamar de criativo. Quase todos os livros sobre liderança e sobre criatividade destacam aspectos necessários à personalidade da pessoa que exerce uma liderança inovadora ou que tenha maior propensão para ser uma pessoa criativa.
Juntei as principais características neste texto. A pessoa que reunir o maior número delas certamente tenderá a ser mais criativa. Se possuir ainda, pendor para a liderança, poderá ser um líder ainda mais produtivo.
Um líder criativo é aquele que é reconhecido por sua capacidade de inovar, de promover mudanças significativas, de quebrar paradigmas arcaicos, de levar seus liderados para caminhos alternativos, de buscar novas possibilidades para velhos problemas, para fazer o trivial de uma maneira mais interessante, de fazer as coisas de forma diferente do usual.
Ser um líder criativo é fundamental para a liderança? É possível que criatividade não seja a característica mais importante do perfil de um bom líder. Entretanto, ninguém pode negar que um líder criativo tem mais chance de ter um desempenho melhor, especialmente num mundo de muitas mudanças, que valoriza a inovação, de alta competitividade e onde os pequenos detalhes diferenciais podem fazer muita diferença. É possível também ser um líder que não seja tão criativo, mas que demonstre ser sábio ao se cercar de pessoas criativas. Neste caso, o líder deve aprender a lidar com estas pessoas que, por serem mais criativas, tenderão a ter alguns comportamentos diferenciados.
Tendo ou não pendor natural criativo, todo líder pode desenvolver seu potencial criativo. Para isso, algumas posturas precisam estar acionadas na sua personalidade, no seu espírito. Falo em espírito quase como sinônimo de personalidade, no sentido de predisposição do coração e da mente para fazer o certo com o fim de atingir um objetivo, ou seja, evidenciar um conjunto de elementos que juntos viabilizam ou favorecem o ato criativo. Talvez o líder, para ser criativo, terá que rever algo do seu jeito de ser, da sua maneira como se relaciona com as pessoas, de sua reação para com os contrários e com os que pensam diferente e de seus padrões culturais.
O conjunto dos aspectos destacados neste texto faz parte da personalidade de um líder que se destaca por sua criatividade. É pouco provável que estejam todos presentes em uma só pessoa. Entretanto, pode-se observar na personalidade criativa a maioria desses traços, ou em menor ou maior intensidade, alguns deles. Portanto, o espírito do líder criativo, geralmente:


É ABERTO AO NOVO E À MUDANÇA

Quase tudo tem se transformado rapidamente. O criativo é alguém aberto para as novidades. Não tem uma mente fechada para aceitar mudar o que precisa ser mudado. Sabe que nem tudo que é novo é necessariamente bom, mas, também, sabe que há muita coisa boa sendo lançada e muita coisa nova surgindo como resultado de pesquisa séria. Sabe que sempre se aprende algo (bom e ruim) de qualquer novidade (boa ou ruim). O líder de mente aberta adota o princípio de que qualquer coisa pode ser feita de uma maneira melhor, mesmo que a atual maneira de se fazer ainda dê resultado. Ele sabe que o futuro reserva muitas surpresas e mudanças surpreendentes. Ele resiste a tendência de evitar a mudança.
José Predobom, afirma:

Nossa natureza nos faz apegar ao conforto da rotina. Devemos evitar que esta tendência se radicalize. A ponto de nos fazer sofrer com as mudanças, já que elas fazem parte da vida. A criatividade baseia-se também em mudanças. Podemos desenvolver nossa capacidade de adaptação à mudança e também podemos ir mais adiante, tornando-nos agentes de mudança. Assim encontramos mais motivação para desenvolvermos a criatividade.

Ter uma mente aberta não significa ser instável, inseguro ou sem pensamento ou personalidade definidos. Não é uma demonstração de fraqueza de valores e princípios do líder, ou uma atitude volúvel para com suas convicções. A mente aberta madura é capaz de examinar todas as coisas, aprender o que elas têm de bom e expurgar delas o que não for útil, relevante ou ético. Embora seja também capaz de rever alguns de seus princípios cujos fundamentos não tenham mais sustentação. O líder de mente aberta não se aliena da realidade, não é dogmático, nem se recusa preconceituosamente a verificar o que é novo. Não tem medo de experimentar o novo, até para julgá-lo.


É FLEXÍVEL

A flexibilidade aqui não denota somente a capacidade de mudar, de voltar atrás, de rever posições. É claro que isso é importante. Líderes criativos precisam ter um espírito flexível, para enfrentar e suportar as várias visões e posições que se apresentam sobre determinadas situações e problemas e ter a humildade de rever as suas próprias, em função de outra que se apresenta melhor. Flexibilidade é o oposto da intransigência e da rigidez. A rigidez mental e emocional é a incapacidade de aceitar mudanças. Segundo Charles Swindoll “a rigidez restringe a criatividade e, assim, bloqueia o progresso. A rigidez é ameaçada pelos riscos e pela possibilidade de fracasso, pelo que tosa as asas do futuro – e em seguida critica a pessoa por não voar”.
Muito mais importante é a flexibilidade mental. A capacidade de ver um dado problema sob um ponto de vista antes inimaginado. É a possibilidade de buscar soluções em caminhos antes inexplorados; “mares nunca dantes navegados”. É ser capaz de tentar uma fórmula nunca experimentada. Ter uma mente flexível representa um esforço para pensar diferente do tradicional. Isto pode requerer a quebra de paradigmas ou a ruptura com um modo dito lógico de pensar. As perguntas que um pensar flexível se faz são, geralmente: “Por que não?”, “E se...?”, “Que tal?” “Imagine?”.
Mais uma vez se reforça que flexibilidade não quer dizer frouxidão ética ou ausência de referenciais. Uma pessoa pode ter um espírito flexível e ao mesmo tempo ter referenciais de conduta e parâmetros éticos firmes. O que a diferencia é a capacidade de tentar entender os problemas sob a perspectiva do outro, ainda que discorde dele, e buscar a solução tendo outros focos além dos seus. Nesse processo pode até rever posturas, desde que aquelas anteriormente tidas como corretas se mostrem deficientes ou incompletas.
Corre paralela à flexibilidade a fluência. Fluência é a capacidade de “produzir mais idéias do que uma pessoa comum sobre determinado assunto”. É ser capaz de produzir idéias variadas a respeito de uma questão e vê-la sob diversos prismas. O espírito criativo é fluente. Essa fluência pode ser manifesta verbalmente ou em idéias que são expressas em pinturas, esculturas, dança e encenações.


É CURIOSO

O espírito criativo é inevitavelmente curioso. É incorrigivelmente bisbilhoteiro. Quer saber de tudo, examinar tudo, conhecer o máximo daquilo que lhe interessa fortemente. É um observador ativo e, às vezes, quebra as regras da boa discrição, tornando-se inoportuno, porque quer saber mais do que a situação permite ou que a aparência dá a conhecer. Ele não se satisfaz com a informação incompleta. Não é a curiosidade dos fofoqueiros. É a curiosidade dos enciclopedistas, dos que querem armazenar o maior número de informações.

A curiosidade – num certo sentido sinal de mente sadia, às vezes engenhosa... é a centelha que conduz pesquisadores famintos ao labirinto da verdade, recusando-se a paralisar a busca, indo ao exame total, completo.

É no domínio de muitos dados e no conhecer de fatos e situações variadas que o líder criativo de mente curiosa pode viabilizar alternativas. É porque busca saber mais que é capaz de estabelecer mais relações e terá mais possibilidades. É um pesquisador voraz. Sabe intuitivamente que quanto mais conhecer mais chance terá de encontrar soluções novas para problemas velhos.
No entanto, por causa de sua curiosidade muitas vezes seletiva, direciona seu interesse para áreas específicas. Consciente ou inconscientemente descarta informações que não sejam importantes para suas preocupações. No entanto, não hesita em ir fundo quando um assunto lhe chama a atenção ou tem alguma relação com o objeto de seu estudo. Por tudo isso a curiosidade é chamada de a mãe das invenções.


É AUTOCONFIANTE

O líder criativo tem confiança em si. Sabe que é capaz de chegar aonde quer no que depender dele. Confia na sua capacidade de levar um projeto até o fim. Acredita no seu potencial.
Autoconfiança não é auto-suficiência. Não se julga suficientemente capaz para todas as tarefas e demandas. Se não conhece e não sabe fazer todas as coisas (ninguém sabe), procura ajuda e busca conhecimento. Sua autoconfiança pode ser confundida com arrogância. Ainda que alguns eventualmente a demonstrem, isto não é o comum. Alguém disse acertadamente: confie em você e dependa de Deus.
Autoconfiança é a segurança interior. É ser capaz de lidar com os temores, com a falta de recursos, com as limitações diversas com determinação. É aceitar os desafios e ver dentro de si as possibilidades para superá-los. Como afirma Kneller: “A pessoa criativa tem íntima confiança no valor de sua obra. Pode achar-se possuída por um sentimento de missão, até mesmo de predestinação”. A autoconfiança é parceira da auto-realização. Antunes, também concorda que as pessoas criativas “revelam-se autoconfiantes nas coisas que fazem, chegando a ousadia de defender suas idéias mesmo quando contrariam às normas vigentes. Muitas vezes inconstantes em sua capacidade de concentração para outros temas, mergulham com intensidade em suas obras”. .


É PERSISTENTE

Persistência é a mais difícil das virtudes que um líder criativo deve possuir. Perseverança é fruto da paciência. Ainda que uma idéia nova surja de repente, ela nunca nasce do vazio. Ela é fruto de um esforço empreendido para chegar a ela. Muitas hipóteses já foram testadas e descartadas. Muitas frustrações já foram colhidas. Muita transpiração já foi experimentada. Albert Einstein disse alhures que “criatividade é 99% de transpiração e 1% de inspiração”. Kneller também afirmou que “a criatividade exige persistência, uma vez que ela muitas vezes tem de ser sustentada por longos períodos de tempo, e enfrentando formidáveis obstáculos”.
Muitos projetos com um alto potencial de sucesso foram abortados por falta de persistência. Diz-se que Thomas Edson, antes de criar a lâmpada, tentou, sem sucesso, mais de 900 vezes. A perseverança é o combustível da criatividade e, para muitos, infelizmente, ela acaba bem perto de chegar ao sucesso.
É natural encontrarmos resistência quando desejamos mudar algo, especialmente algo consagrado culturalmente e compartilhado por um grupo. As pessoas resistem às mudanças por insegurança, por medo, por convicção pessoal, por não acreditarem ou não entenderem o projeto de mudança ou porque esta pode lhes trazer algum tipo de perda.
Nas organizações, geralmente, nossos pares demonstram sua dificuldade de aceitação das novas idéias, novos projetos, novos programas com observações que servem como um breque às tentativas de mudanças. Algumas destas expressões e possíveis objeções corajosas a elas são:
- “Já tentamos algo parecido antes!”. Tentemos de novo e melhor ainda.
- “Isso não dá certo aqui!”. Quem garante?
- “Aqui é diferente!”. Aqui é outro planeta?
- “Nossa organização não está acostumada com isso!”. Que tal nos acostumarmos?
- “Não temos recursos!”. Podemos arrumar. Compromisso precede provisão.
- “Nossa organização não está preparada!”. Vamos nos preparar.
- “Isso pode chocar alguns!”. Esclareçamos. Alarguemos a visão deles.
- “Muitos não vão gostar!”. Muitos outros vão gostar.
- “Não é assim que aprendemos com o líder anterior!”. O líder e o tempo são outros.
- “Podemos estudar o assunto mais à frente!”. Semana que vem.
- “Nossa organização não aceita isso, não gosta disso!”. Tem o resultado da pesquisa de opinião?
- “Vamos encaminhar o assunto para uma comissão estudar!”. Parecer conclusivo em 30 dias.
- “Assim como está, está bom!”. Mas pode ficar melhor ainda. O pior inimigo do ótimo é o bom.
- “Assim, vamos perder clientes!”. Será que vamos mesmo, se estamos querendo o melhor?

O líder criativo é obstinado. Gasta tempo cultivando as boas idéias, informando-se, lendo. Fazendo experiências. Não se dá por vencido facilmente. Tenta outros caminhos, mas não desiste, se acredita firmemente no projeto.


É TOLERANTE

Tolerância é a capacidade de aceitar as diferenças e saber conviver com elas. Tolerância não significa transigência. Não é necessário abrir mão das próprias convicções ao ser tolerante. Basta aceitar os outros como são, procurando entender as razões por que assim pensam ou agem, ainda que pense diferente deles.
O tolerante é benevolente, não é preconceituoso. O tolerante convive bem com as diferenças e tira lições delas. O tolerante observa e sabe encontrar virtudes no outro diferente, seja grupo ou pessoa. É capaz até de aprender, transpor e adaptar com criatividade o que julga bom para si ou seu grupo e que dá certo em grupos de convicções diferentes das suas. O tolerante é paciente consigo mesmo e com os outros. Suporta certas contradições, fraquezas e improvisos próprios da natureza humana e, com isso, percebe algo mais, pois sua mente não se fecha para o que não concorda. Como afirma VIDAL, “o sujeito criativo tolera particularmente bem a desordem, o irracional, a tensão criada pelos valores opostos, as idéias perturbadoras, os riscos”.
O líder criativo sabe viver com os contrários. Cresce com a oposição. É benevolente para com certa ambigüidade, desordem e espontaneidade. Sabe que novas e interessantes idéias podem nascer de um aparente caos ou das posturas e práticas diferentes ou contrárias à sua.


É BEM-HUMORADO

Ter senso de humor é essencial para o espírito criativo. Pessoas criativas riem dos seus erros e gafes e encontram sempre o lado hilário das coisas. Elas não levam muito a sério seus próprios furos e micos. Divertem-se com eles. Sabem destacar o aspecto cômico de cada situação.
A imaginação aciona a fantasia, a elucubração. A fantasia ou gera patologias para os excessivamente neuróticos ou o riso para os criativos. A originalidade é sempre, a princípio, engraçada.
Aprendemos melhor quando somos envolvidos pelo lúdico. Precisamos encontrar prazer nas coisas que fazemos, caso contrário, não empenharemos o nosso melhor nelas. Estar feliz com o que se faz é fundamental para que a criatividade flua.
O líder criativo tende a ser alegre, brincalhão, piadista. Diverte-se com suas próprias idiossincrasias. Não é tão duro consigo mesmo. Isso o ajuda a desempoeirar e a oxigenar a sua mente. Kneller afirma que ä pessoa criativa tem mais senso de humor, esse humor permite ao criativo exprimir sentimentos que uma pessoa normal reprimiria.”




É VISIONÁRIO

O líder criativo geralmente desenvolve uma capacidade visionária. Enxerga longe. É capaz de ver além do seu tempo, prospectivamente. Consegue vislumbrar uma realidade ainda não existente quase como se estivesse presente. Traz o futuro para o agora na sua imaginação. No dizer de John Sculley, ex-CEO da Pepsi e da Apple Computer, citado por citado por Maxwell: “O futuro pertence aqueles que vêem as possibilidades antes que se tornem óbvias”. . Maxwell afirma que é “a visão que lidera o líder. Ela desenha o alvo. Acende e alimenta a chama interior e impele o líder para frente. Ela também acende aqueles que seguem o líder”.
Porque enxerga adiante, nem sempre é compreendido. Tido como sonhador, utópico, precisa ter mais paciência para com os que não têm a mesma percepção que a sua. Normalmente, tem noção, ainda que não totalmente clara, do caminho a ser seguido para se chegar à realização da visão. Tem consciência da realidade, mas não permite que as circunstâncias limitantes do presente impeçam a busca da concretização de seus ideais.
O líder criativo dá asas à sua imaginação, como fez esplendidamente Walt Disney. Permite-se navegar nos mares da fantasia, dos sonhos. Aventa todas as possibilidades. Não tira o pé do chão da realidade, mas antevê outras realidades que podem ser construídas a partir da que se tem. É um vislumbrador, aberto aos desafios, às novas experiências, aos impulsos. O mundo precisa de gente que vê longe.


É SENSÍVEL

Um líder criativo tem uma sensibilidade mais destacada. Primeiro, para perceber as necessidades e os sinais de um mundo em transformação. Segundo, para dar ouvidos á voz da intuição e do insight.
O criativo é sensível para perceber o que tem de mudar. Sente que tudo pode ser melhorado. Sabe quando é tempo de avançar ou recuar. Consegue detectar com mais facilidades quando mudanças de paradigmas e conceitos estão em andamento. Sente mais facilmente as insatisfações, as demandas e as carências. Essa sensibilidade especial o coloca na dianteira para buscar soluções criativas que possam suprir as necessidades.
José Predebom, afirma que pessoas criativas tornam-se agentes de mudanças por são, perante a média das pessoas, “mais sensíveis, determinadas e idealistas. Terão papel cada vez mais importante, e sua capacidade de improvisar será a grande competência do futuro. Porque as novas gerações irão administrar competências hoje inimagináveis”.
Também possui uma intuição mais aguçada que o permite antever saídas para resolver situações problemáticas. É capaz de perceber que alguns caminhos são mais propícios que outros. Ostrower afirma que “Como processos intuitivos, o processo de criação interliga-se intimamente com o nosso ser sensível. Mesmo no âmbito conceitual ou intelectual a criação se articula principalmente pela sensibilidade”. O criativo é, por natureza, intuitivo. Isto não quer dizer que dispense o trabalho de pesquisa, pensamento, testes, enfim, o desgaste da criação, mas sabe que em algum momento lhe surgirá uma luz, um insight que porá fim à intensa busca. O sofrimento até a chegada desta eureka é sempre muito intenso.


É CORAJOSO

Ser criativo exige muita coragem. Coragem para mudar o que precisa ser mudado, para romper tradições, para contrariar interesses, para destronar fórmulas e procedimentos até então consagrados como imutáveis. Para ser criativo e inovador é preciso enfrentar os diversos dogmatismos e os fundamentalismos culturais, sociais, econômicos, políticos e religiosos. É preciso coragem para mudá-los quando necessário. No entanto, não é preciso criar uma guerra ou ser suicida para que as coisas mudem. Galileu, em seu tempo, voltou atrás e concordou com o dogmatismo de então que afirmava que a Terra era o centro do universo e salvou seu pescoço. Ele sabia que um dia eles ou as próximas gerações iriam descobrir isso. Também sabia que aqueles não tinham categorias mentais suficientes para compreender o romper com o paradigma estabelecido.
Sem precisar correr risco de morte, o líder criativo depende da coragem para enfrentar as críticas dos incrédulos de plantão e dos que eventualmente duvidam de sua saúde mental. É preciso coragem para sacudir e modificar o status quo e agüentar tudo o que isto representa. O ato criativo é um ato de ousadia, pois, inevitavelmente, implicará mudanças. Toda mudança é dolorosa e tendemos a evitá-la.
O medo de fracassar nos impede de tentar arriscar. O medo paralisa, inibe. O temor é anticriativo. Rolo May afirma que “coragem não é a ausência do medo, mas a capacidade de seguir em frente apesar do medo”. É preciso coragem para criar, para ousar, para experimentar.
A coragem, entretanto, não é irracional. O bom senso sábio estabelecerá os limites da criatividade. Embora seja estranho falar em limites da criação, já que, por princípio, nela não há limite. No entanto, há uma lógica no ato criativo. Há inaceitáveis estabelecidos pelas regras do bom senso. O ato corajoso da criação também não é tolo.
O líder criativo não deixa uma idéia morrer sem ao menos ter tentado testá-la ou colocá-la em ação. Se ele tem convicção de que vai trazer benefícios e resultados positivos, não se deixa intimidar ou abater-se pelas dificuldades.


É INDEPENDENTE

A independência do líder criativo se dá em dois níveis: ser capaz de sublevar as estruturas culturais e políticas e pensá-las crítica e construtivamente; ser capaz de pensar as coisas de forma diferenciada do senso comum. Antunes afirma que pessoas criativas “mostram-se extremamente capazes e interessados de observar objetos, eventos ou fatos por ângulos inusitados. Compreendem e admitem a rotina, mas possuem sempre outras alternativas para solucionar problemas, linhas de ação ou iniciativas a tentar”.
O líder criativo sabe que está inserido num contexto cultural e político pré-estabelecido cujas regras e ditames se espera serem obedecidos. No entanto, sabe que as idéias têm força de mudança. Ao tempo em que está inserido no contexto é capaz de mentalmente afastar-se dele para detectar suas incongruências. Nesta ocasião, mostra-se um rebelde, um inconformado, um revolucionário. “Só os rebeldes são criativos”, escreveu Rollo May. Acomodados, satisfeitos, adaptados, complacentes não promovem mudança. O criativo tende a ser cético em relação a algumas afirmações categóricas, definitivas. Segundo Scheier, citado por Assumpção “a pessoa criativa possui inteligência, imaginação, audácia e certa auto-suficiência interior em oposição à dependência e imitação”.
O pensamento independente é reflexo de certa incapacidade de se adaptar. As maiorias das pessoas mais criativas da história não foram reconhecidas como tais pelos seus contemporâneos. Só a posteridade é que lhes atribuiu mérito. Só foram reconhecidas postumamente. Sofreram as agruras do pensar e agir fora do seu tempo. Rolo May afirma que muitos gênios demonstraram comportamentos fora do padrão e sofreram por isto.

Sem dúvida, na nossa cultura a criatividade associa-se a sérios problemas psicológicos. Van Gogh enlouqueceu. Gauguim era evidentemente esquizóide. Poe era alcoólatra e Virgínia Wolf sofria de depressão grave. Evidentemente criatividade e originalidade associam-se a pessoas que não se adaptam à cultura em que vivem. Mas isso não significa necessariamente que sejam produtos de neuroses.

O criativo também usa esquemas variados de pensamento. Tende a pensar de maneira diferente, isto é, seguindo esquemas de estruturas mentais incomuns. Demonstra interesses não-convencionais. Por isso, pode percorrer caminhos de lógica própria. Tem pensamentos e julgamentos independentes, autônomos. Não se conforma com os veredictos do senso comum. Critica-os. Insurge-se. Percebe-lhes facilmente suas contradições. Torrance, citado por Assumpção, resume bem o pensamento independente do ser criativo:

O problema fundamental do indivíduo criativo consiste em aprender a enfrentar a desconformidade que resulta de sua divergência, decorrendo outros problemas, como: afrontar as sanções da sociedade; as pressões para que seja uma personalidade bem moldada; o desejo de aprender por si mesmo; o gosto pelas tarefas difíceis, a busca de um propósito; as valorações divergentes; o ser motivado por recompensas diferentes; o buscar sua própria singularidade.


É APAIXONADO

Esta talvez seja uma das marcas mais forte para a criatividade. Sem paixão não se cria nada. Paixão aqui entendida em sua acepção grega: patia (sentimento, emoção, envolvimento). Contrário de apatia ou antipatia. É no fogo da paixão por algo ou alguém que plenopotencializamos nossa capacidade criativa. É na pressão da comoção, do sofrimento, da dor, do desgaste emocional, da urgência imperiosa, da demanda desesperada que geralmente nos tornamos mais criativos.
Antunes, falando das pessoas criativas afirma que elas “revelam verdadeira determinação na busca do que gostam e parecem apaixonados por seus objetivos. Ao contrário de alguns escritores ou mesmo compositores que são talentosos, mas têm preguiça de se empenhar e fazer, os alunos criativos parecem ‘jamais pensa em outra coisa que o objeto de sua criação.”
Atos criativos podem até acontecer em momentos de serenidade e ócio, mas esses momentos foram inexoravelmente precedidos de muita angústia. A paixão é a contração necessária para que o filho da criatividade nasça. Em “As 21 indispensáveis qualidades do líder”, Maxwell afirma que “você nunca poderá liderar alguma coisa pela qual você não esteja apaixonado. Não poderá iniciar um incêndio em sua organização a menos que o fogo esteja queimando primeiro em você.”
O criativo tem um espírito apaixonado, quase obcecado, pelo seu objeto de estudo. Trata-se de uma relação tão intensa que após a concepção vem o imenso prazer. Uma satisfação tão profunda que só os apaixonados podem descrevê-la.

CONCLUSÃO

O conjunto das características do espírito criativo é uma descrição ideal. A ausência de um ou mais dos elementos descritos não impedirá alguém de criar ou inovar. Contudo, dificilmente um líder será criativo se não apresentar a maior parte dessas qualidades. O espírito criativo é a soma de todas ou da maioria delas.
Quando se pensa em criatividade imediatamente se associa a grandes invenções, espetaculares descobertas, avanço tecnológico. Liderança criativa abrange também o conjunto de pequenas ações que tornam a vida dos grupos melhor. O espírito do líder criativo está presente quando ele busca um jeito melhor de dirigir uma reunião, quando procura uma maneira mais eficiente de comunicação com os liderados, quando se esforça por aperfeiçoar os processos na organização, quando anseia por encontrar formas mais inteligentes de motivação de seu grupo.
O texto não esgota as marcas que um líder deve possuir para ter um espírito criativo, mas apresenta as principais. Também é preciso reconhecer, mais uma vez, que nem todas as características descritas serão encontradas em sua plenitude nos líderes criativos de sucesso, muito menos em graus de mesma intensidade. Ainda, se a maior parte do conjunto do que chamamos do “espírito do líder criativo” não pode ser percebido em um líder, com certeza ele terá muita dificuldade em ser criativo. Ele será o líder do tipo mantenedor das coisas como estão e lhe foram dadas e poucas mudanças promoverá. Dificilmente um líder com o espírito criativo não gerará mudanças e não será um expressivo agente de mudanças.

BIBLIOGRAFIA:

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